KAMILLA NUNES

HOJE FICAMOS POR AQUI

 

 

três tiros, uma mulher é morta, era 14 de março, ano de 2018, uma voz amiga nos fala, num abraço, que é preciso cuidar: “eles estão nos matando”.

 

algumas pílulas de morfina, um homem se mata, era 26 de setembro, ano de 1940, um escrito há pouco dizia: “nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo”.

 

cinquenta e sete milhões de votos, uma democracia agoniza, era 28 de outubro, ano de 2018: “ninguém solta a mão de ninguém”, gritavam nas ruas.

 

um caco, uma louça se espatifa no chão, era um dia de faz de conta, ano de 1936: “Emília quebrou de propósito uma linda xícara verde de Dona Benta só para completar sua coleção de caquinhos”.

 

duzentos e setenta pontos, quarta-feira de cinzas, era 6 de março, ano de 2019, num Estado em que matar é regra geral, uma escola vence cantando o “o avesso do mesmo lugar/ na luta é que a gente se encontra”.

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cinco cenários-gatilhos que, nas linhas e entre_linhas, permeiam esta exposição.  

 

_ HOJE FICAMOS POR AQUI surge da tentativa de abarcar corpos e lugares, pessoas e afetos, questões público-privadas. Um minúsculo espaço ocupado para que discursos sejam tensionados, para criar uma vibração a partir de uma polifonia, vozes que explodem, que fragmentam crises em cacos para criação de uma coleção de rastros compartilhados.

 

Aline Natureza